SUS: saúde no remédio, doença no atendimento

SUS: saúde no remédio, doença no atendimento

A Política Nacional de Humanização (PNH), criada em 2003, nasceu para efetivar os princípios do SUS no cotidiano dos serviços de saúde. Na teoria, a proposta é belíssima: valorizar gestores, trabalhadores e usuários, promover vínculos solidários, criar espaços de diálogo e tornar os atendimentos mais acolhedores. Na prática, no entanto, ainda estamos muito distantes desse ideal.

É curioso notar que, nos últimos anos, as campanhas de saúde pública têm dado enorme destaque à saúde mental. Mas de que adianta falar em saúde mental se o próprio sistema de saúde adoece o usuário? Outro dia, presenciei uma cena em uma farmácia do SUS: uma senhora idosa, fragilizada, foi tratada com arrogância e impaciência enquanto buscava seu medicamento. Pergunto: que sentido faz defender humanização e, ao mesmo tempo, gerar constrangimento, medo e dor justamente nos espaços que deveriam acolher e cuidar com humanidade?

Parece haver uma contradição cruel. A pessoa chega ao serviço público em busca de um medicamento para tratar uma doença e, de brinde, recebe um mau atendimento que pode afetar sua saúde mental. Seria esse o efeito colateral invisível do medicamento distribuído pelo SUS?

A humanização não pode ficar restrita a cartilhas ou sites oficiais. Precisa estar na atitude de quem atende, na escuta atenta, no respeito à dor e ao sofrimento alheio. Humanizar é entender que – muitas vezes – o maior remédio não está na caixinha entregue no balcão, mas na forma como a mão que entrega o medicamento trata quem o recebe.

Porque saúde começa pela forma como cuidamos – e não há remédio capaz de curar a dor de ser tratado com desumanidade e falta de respeito.

Um comentário em “SUS: saúde no remédio, doença no atendimento

  1. Verdade … Ótima colocação, a humanização precisa sair das cartilhas e sites oficiais .

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *