Cracolândia esvaziada: nova dispersão de usuários desafia políticas públicas em SP

Cracolândia esvaziada: nova dispersão de usuários desafia políticas públicas em SP

Fluxo desaparece da Rua dos Protestantes, mas usuários migram para outros pontos do centro; prefeitura celebra, mas movimento denuncia violência

A famosa Rua dos Protestantes, localizada na região da Santa Ifigênia, amanheceu surpreendentemente vazia nesta semana. O local, conhecido por ser um dos principais pontos da Cracolândia em São Paulo, não apresentou a tradicional concentração de usuários de drogas, o chamado “fluxo”.

Apesar disso, moradores da região relataram que os dependentes químicos não desapareceram, mas se dispersaram para outros pontos do centro da capital paulista, como as regiões do Minhocão, Santa Cecília e diversas avenidas próximas.

O prefeito Ricardo Nunes (MDB) demonstrou surpresa ao comentar o esvaziamento da Cracolândia durante coletiva de imprensa. Segundo ele, a mudança seria resultado de um trabalho contínuo da prefeitura e do governo estadual, com ações de repressão ao tráfico de drogas e reforço policial.

“Surpreendeu, verdadeiramente […] todos os dias vinha reduzindo a quantidade de pessoas lá”, afirmou Nunes.

O prefeito também destacou o papel de operações na Favela do Moinho, que teriam enfraquecido a estrutura do tráfico no entorno da Cracolândia.

Ações de segurança e dados expressivos

A Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP) divulgou um relatório atribuindo a redução do fluxo a medidas como:

  • Prisões de lideranças do tráfico;

  • Apreensão de drogas e armas;

  • Fechamento de hotéis e pensões usados para lavagem de dinheiro;

  • Monitoramento com câmeras;

  • Aumento do efetivo policial e treinamento especializado.

Os resultados são expressivos: entre janeiro de 2023 e abril de 2025, foram capturados cerca de 4 mil foragidos da Justiça, com mais de 15 mil prisões no centro, 6,5 toneladas de drogas apreendidas e queda de 43,9% nos roubos e 28,8% nos furtos.

Críticas e denúncias de violência

Apesar dos dados positivos apresentados pelo poder público, o movimento social A Craco Resiste denunciou nas redes sociais que o esvaziamento ocorreu devido à repressão violenta da Guarda Civil Metropolitana (GCM).

Segundo o grupo, a gestão Nunes, em parceria com o governo Tarcísio de Freitas (PL), estaria reeditando a chamada “Operação Dor e Sofrimento” de 2012, forçando os usuários a deixarem o local por meio da violência.

Relatos colhidos por universidades como a USP e a Unifesp, em parceria com o movimento, indicam aumento de agressões físicas, uso de spray de pimenta e abordagens consideradas humilhantes e vexatórias. O movimento denuncia ainda a apropriação de pertences dos usuários e falta de acesso à água.

Deslocamento não é solução, alertam especialistas

A dispersão da Cracolândia, sem estrutura de acolhimento adequada, pode apenas transferir o problema para outras áreas da cidade, dificultando ainda mais o atendimento de saúde e reinserção social.

O governo estadual afirma que está separando dependentes químicos de criminosos, encaminhando os primeiros para o Hub de Cuidados em Crack e Outras Drogas. No entanto, movimentos sociais e especialistas alertam que a simples mudança geográfica do problema pode representar uma forma de “limpeza urbana” e não uma solução estruturada.

Fonte e Imagens: CNN

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